SÉRIES INICIAIS
- Crianças mais pobres vêem o micro de outra forma?
MARISA: As crianças de escola pública têm uma consciência muito maior, em relação às de escolas particulares, de que o computador pode ser um trampolim. Eles até dizem coisas como "agora que eu sei usar computador, quando crescer, vou ser gerente de banco". Entre crianças de escolas particulares não há esta noção. Para elas, não houve apropriação de um saber, porque o computador é como a TV ou o videocassete. Já os mais pobres sabem que o computador é muito importante e que está dando algo mais à educação deles.
- Existe uma regra para escolher software?
MARISA: Seja para casa ou para escola, é preciso saber se é interativo e agradável. Mas o mais importante, no caso da escola, é saber sempre qual o objetivo a ser trabalhado em sala de aula e que software pode se adequar a esse objetivo. Quando um pai compra um programa para ser usado em casa, a primeira coisa a fazer é não dizer que o software vai ajudar na escola. O filho vai se desinteressar. É importante escolher os que trazem algum conhecimento geral. Mas até um editor de textos pode proporcionar uma atividade interessante na escola. Ou um banco de dados. Depende da aplicação que se dá. Um software ou um site que não foram criados para serem educacionais podem ser úteis na sala de aula.
- Depois de tantos anos de pesquisa, o que se sabe sobre o uso do computador na escola?
CARLA: Acho que já esgotamos pesquisas para saber se os computadores são úteis à educação. Eles são, já sabemos. Agora, queremos que sejam divulgadas pesquisas, já existentes, sobre como, quando e onde usar o computador. Mas no momento minha maior preocupação é com a ergonomia nos laboratórios, com a postura das crianças. A criança pode ficar horas na frente do computador, mas tem que estar confortável, com os pés no chão, os braços apoiados, o monitor na altura dos olhos. Assim como nos anos 60 houve uma grande revolução nas escolas para se instalar um mobiliário apropriado para as crianças, deve-se começar a tomar cuidados para evitar novos vícios. Pesquisa-se sobre quais são os melhores softwares educacionais, quais os melhores sites, mas ainda não se sabe escolher móveis adequados.
- Que novidades o micro trouxe para a escola?
JÚLIA: Quando uma criança usa o computador para criar um texto, por exemplo, expõe suas idéias na tela, que substitui o papel. O trabalho começa a ficar exposto ali. Além disso, como as crianças trabalham em duplas, nenhum parceiro vai deixar que o outro exponha uma idéia sem explicar por que está fazendo daquele jeito. A criança passa a verbalizar e a dar significado ao que pensa. E o parceiro contesta até que se chegue a uma conclusão. Outra vantagem é o aumento da auto-estima, na medida em que os alunos sabem que estão produzindo um texto para uma grande audiência, não só para o professor. O parceiro já é uma audiência. Depois, a oficina de produção permite que as idéias sejam lançadas em voz alta e uma criança de outro computador pode se interessar por ouvir ou ler aquela história. Isso sem falar na veiculação do trabalho na Internet, como acontece em muitos casos. A disciplina em sala de aula é diferente. Há sempre um burburinho. O que nos interessa é que participem, ponham para fora o pensamento. Mas a primeira impressão que tem os não familiarizados é a de que tanta confusão não vai dar certo...

